07/01/2010 – BICHO MENINO – por Flavio Salles

Tive a sorte de ter um casal de gêmeos, o que me permite afirmar— não com conhecimento científico, mas com certo frescor empírico ¬— o seguinte: menino é um bicho diferente de menina. Digo, não só nas formas, cores, acessórios e métodos para fazer xixi. Mas nos movimentos, pensamentos e até no jeito de expressar seus sentimentos.

Menino é agitado. Dez, cinco, dois minutos para um menino podem parecer uma eternidade. Isso se ele tiver que ficar no mesmo lugar. Ver um filme, montar um quebra-cabeça, brincar de jogo da memória. Nas mesmas coordenadas x e y? Perde a paciência. Começa a atirar as peças longe e inventa logo outra brincadeira. Quer correr no corredor, fazer duelo de espada-de-dedo, dar tiro de espingarda imaginária.

Uma vez uma amiga me disse que contava as mesmas histórias para seu filho e para sua filha. Só que na versão dele, inseria algumas derrapagens, algumas explosões. “Aí, o príncipe beija a princesa e — buuuuum —, explode o castelo. Eles morreram? Não, eles tinham pulado da torre. Ah, tá.” Meninos precisam de ação. Na hora da história, na hora de comer, na hora de dormir: “Pai, o soninho não está chegando. Filho, se você não plantar bananeira na cama, é mais fácil dele chegar”.

Meninos são corajosos, não se importam em levar bronca. Meninos enfrentam: “Quer levar uma palmada? Quero!” Na verdade, não querem. Querem atenção. Querem mais amor. Do pai, da mãe, das meninas. Ai… as meninas. Essas criaturas vestidas de rosa e que usam acessórios, e que não se sujam, e que conversam, e que se comportam, e que são lindas, tão lindas, quase tão lindas como a mamãe.

O pai do menino é um super herói. Com tantos poderes, que somente aquela barriga ou aquela careca, (que ele tenta em vão esconder com a franja), podem fazer as pessoas acreditarem que ele é uma pessoa normal. Meninos querem ser iguais aos seus pais. Quando meu filho diz “…porque O MEU PAI”, eu encaro até o Super-Homem.

As meninas alardeiam que são mais espertas que os meninos. Epa, epa, epa….é verdade. Meninos são mais ingênuos. Parecem vir ao mundo com o coração puro, os olhos vibrantes, pés rápidos e braços fortes, para conhecer, amar e conquistar. O mundo, o pai, a mãe e todas as outras criaturas vestidas de rosa.

Eu não sei se todos os meninos são assim. Mas O MEU FILHO me ensinou que ser menino é ser assim.

Flavio Salles

Formado em publicidade pela PUC-RJ e pós graduado em marketing pela mesma instituição e autor de Pai Crônico, seu primeiro livro.

Em Pai Crônico, o leitor acompanha as histórias de um pai desde o momento em que descobre que sua mulher está grávida até o dia em que as crianças completam três anos. Mas o livro vai além: propõe uma reflexão sobre a figura paterna, a partir da vivência do autor como filho de um pai distante até a hora em que enfrenta, na própria pele, o desafio da paternidade. Conheça mais em www.paicronico.com.br.

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